A CANÁBIS DO GOVERNO É MUITO DIFERENTE DO PRODUTO GENUÍNO.

A canábis do governo é muito diferente do produto genuíno.

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Veja com os seus próprios olhos.

Canábis de dispensário

Isto são três gramas de canábis terapêutica de um dispensário em Washington. (Oliver Contreras para o The Washington Post)

Nota prévia: Ultimamente, têm surgido declarações vindas de várias fontes (políticas, mediáticas e económicas) que parecem abrir caminho a uma legalização que privilegia grandes empresas ou até mesmo o monopólio do estado, deixando de lado pequenos produtores, interesses dos consumidores e, muito possivelmente, da comunidade científica, já para não falar do autocultivo.
Partilhamos este artigo do The Washington Post para exemplificar o que pode acontecer quando as decisões (e até o cultivo) ficam fora das mãos de quem é parte interessada. Já tem sido dito várias vezes: a legalização vai acontecer, mais tarde ou mais cedo, quer queiramos ou não. E agora é o momento para sermos participativos se quisermos definir os moldes em que acontece.

Repare bem na foto acima. É isto que a maioria dos consumidores de canábis visualiza quando pensa em “canábis”: pedaços de matéria vegetal verde de odor penetrante, cobertos por resina pegajosa, cristalizada e rica em THC.

Mas um investigador que pretenda trabalhar com canábis (por exemplo, para investigar como prejudica as pessoas ou como poderia ajudar pessoas que sofrem certas doenças) não terá acesso à erva que toda a gente consome. Desde finais da década de 1960, o governo federal decretou que toda a canábis usada em pesquisas teria de ser obtida através do governo federal.

Contudo, para investigar os efeitos reais da canábis, os pesquisadores precisam de um produto que seja em tudo idêntico ao genuíno. E estão cada vez mais frustrados com a erva do governo, que é algo totalmente diferente.

Mas tire as suas próprias conclusões. Na fotografia abaixo, temos uma amostra da canábis federal disponibilizada a Sue Sisley, uma investigadora que acaba de iniciar um ensaio clínico inédito para testar a eficácia da canábis terapêutica em antigos combatentes que sofrem de transtorno de stresse pós-traumático.

Canábis fornecida pelo NIDA

Canábis fornecida pelo NIDA, tal como foi recebida por Sue Sisley. (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicadélicos, MAPS na sigla inglesa)

Aqui estão elas lado a lado:

Comparação entre dois tipos de canábis

Fotografias de Oliver Contreras/Washington Post (esquerda) e MAPS (direita)

Basta olhar de relance para confirmar que em nada se parece com a canábis do circuito comercial exibida acima. Enquanto o produto genuíno é volumoso e verde-escuro, a erva do governo é fibrosa e de cor clara. Parece ter muitos caules, que a maioria dos consumidores não fuma. “Não tem aspeto de canábis. Não cheira a canábis,” declarou Sisley ao PBS NewsHour na semana passada.

Jake Browne, crítico de canábis no Cannabist, um site de notícias sobre canábis do Denver Post, concorda. “Sem qualquer dúvida, esta canábis não está apta para consumo,” afirmou. Browne sabe do que fala: Como profissional, avaliou dezenas de variedades e é responsável por um sofisticado concurso de cultivo de canábis chamado Grow-Off.

“Fumo canábis há duas décadas e nunca vi nada parecido com isto,” disse Browne.  “Geralmente, as pessoas fumam a flor da planta, mas aqui podemos também ver claramente os caules e as folhas, partes que devem ser eliminadas. Inalar isto seria como comer uma maçã, incluindo as sementes que tem dentro e o ramo onde cresceu.”

Poderia tratar-se de um lote excecionalmente mau, mas tudo indica que é este o produto que a maioria dos investigadores recebe.

Toda a canábis federal é cultivada num único complexo na Universidade do Mississípi, sob a supervisão do Instituto Nacional do Abuso de Drogas (NIDA na sigla inglesa). No verão passado, a DEA avançou com medidas formais para permitir que outras entidades forneçam canábis para fins de investigação. Até agora, nenhuma foi aprovada.

Mas os problemas da erva do Mississípi vão muito além da estética.

Por exemplo, a canábis que lá se cultiva atinge uma potência máxima de 13 por cento de THC (a principal molécula psicoativa). E talvez até isso seja um exagero: as análises feitas por Sisley concluíram que uma das amostras do NIDA  que supostamente tinha 13 por cento de THC tinha na verdade cerca de 8 por cento.

Comparativamente, a erva habitual disponível no circuito comercial do Colorado regista cerca de 19 por cento de THC, de acordo com análises de um laboratório que testa a canábis no mercado desse estado. E isso é apenas a média. Certas variedades do segmento mais potente chegam aos 30 por cento de THC ou mais.

Para um investigador, é difícil avaliar o impacto real da canábis mais potente quando apenas se tem acesso a material de baixa qualidade. É como investigar os efeitos da aguardente dando cerveja às pessoas.

Para certos tipos de investigações, isto não coloca problemas, afirma Rick Doblin, diretor e fundador da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicadélicos, um grupo que tem estado a trabalhar com Sisley no ensaio sobre stresse pós-traumático. “A canábis [do NIDA] serve para fazer investigações académicas,” disse Doblin, referindo-se a estudos que analisam como a canábis afeta o corpo num ambiente de laboratório, por exemplo.

Mas a canábis do NIDA não atinge o nível exigido se quisermos saber como o consumo de canábis está a afetar as pessoas no mundo real. Ou se quisermos fazer experiências médicas altamente controladas, como aquela que Sisley e Doblin estão a levar a cabo. Nem sequer é testada a presença de contaminantes comuns, como levedura ou bolor, que muitos estados atualmente controlam no âmbito dos seus regimes regulamentares.

Doblin afirmou que a canábis que receberam do NIDA apresentava níveis de bolor e levedura que superavam largamente os padrões de certos estados, como Colorado e Washington. Mas optaram por avançar com o ensaio, pois confirmaram através de análises adicionais que nenhuma das variedades de bolor e levedura encontradas no material vegetal implicava um risco para humanos.

Por e-mail, um representante do NIDA admitiu que “tem havido um interesse acrescido no seio da comunidade científica por uma maior variedade de canábis e dos seus derivados. […] O NIDA tem planos para cultivar mais canábis ainda este ano e colher material com elevado teor de THC, provavelmente acima dos 13 por cento.”

Traduzido e adaptado do artigo original da autoria de Christopher Ingraham e Tauhid Chappell, publicado a 13 de março de 2017 no The Washington Post

VÍDEO: ponto da situação sobre a legalização nos estados de Washington, Colorado e Oregon (em inglês).

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